Sobre discriminações e transfobias

Sobre discriminações e transfobias

 

Foi um longo espaço sem escrever. Falta de tempo, assunto, talvez a ver com a medicação depois de uma tromboflebite, um avc e um enfarte, que me tirou um pouco (ou bastante) a inspiração. Tudo isto deve ter contribuído para esse interregno. Espero ainda conseguir escrever à altura de antigamente.

 

Não dissertarei sobre um assunto específico, mas sobre uma miscelânea que espero poder encadear de forma lógica.

 

Comecemos pela vitória de Caster Semenya nos Jogos Olímpicos do Brasil. Parece que as derrotadas não gostaram de o ser (especificamente por ela) e querem ir a tribunal, pois consideram que ela, por ter hiperandrogenismo, está beneficiada. Bem, é a mesma teoria que alguns médicos utilizam para validar a exclusão das pessoas trans (dos quais temos um exemplo em Portugal, o Dr. Décio).

 

Ok, refiro sempre o nome do Dr. Décio, embora existam muitos outros médicos que pensam da mesma maneira. Não se trata de nada pessoal contra ele. Como pessoa tenho uma opinião de que é uma excelente pessoa. Como profissional na sua área, é largamente superior à média, como pode bem ser comprovado pelo(s) prémio(s) ganhos no estrangeiro pelas inovações que fez nas cirurgias trans. Com efeito as suas técnicas encontram-se num patamar muitos pontos acima do melhor que se vai fazendo lá fora. especialmente porque oferecem mais sensibilidade e lubrificação (no caso MtF).

 

Mas as suas ideias sobre a transexualidade encontram-se a raiar a transfobia. Como refere num dos seus escritos, não se luta só pela despatologização da transexualidade, luta-se também pela “desmedicalização”. Bem, é uma novidade, sempre apoiei a despatologização das identidades trans e nunca vi em lado algum a desmedicalização. E o link que refere na menção que faz logo no início vai ter a um site que só menciona a despatologização. Mistério talvez clarificado se se pensar nesta frase como (mais) uma tentativa de contra informação, de modo a retirar apoios à luta pela despatologização. Basta pensar nisto, muitas pessoas trans podem não desejar fazer a cirurgia final, mas a maior parte, senão toda a gente, quer fazer tratamento hormonal e algumas cirurgias. Logo esta desmedicalização não faz qualquer sentido.

 

Também fala nos verdadeiros e nos falsos transexuais, como é de seu hábito, sendo que um verdadeiro transexual o que menos quer é dar a cara e delega nas organizações homossexuais a sua luta pelos seus direitos. Isto nem merece comentários.

 

Bem, as bacoradas continuam e quem as desejar ler pode ir ao seguinte site e divertir-se: http://www.joaodecioferreira.com/pt/transexualidade/transexualidade/60-desmedicalizacao-da-transexualidade.html

 

Isto para exemplificar porque falo sempre no Dr. Décio. É que outros que pensam como ele, tipo Pedro Freitas ou Rui Xavier Vieira, não são convidados ou não são tão convidados como o Dr. Décio para debates/colóquios sobre transexualidade. Com efeito, é ele quem tem maior visibilidade, e quem não esteja dentro destes assuntos e vá ao seu site, por exemplo, cai na esparrela de acreditar na série de tretas que lá estão descritas.

 

Não vou gastar aqui tempo com explicações sobre os porquês disto ser transfobia, já houve inúmeros debates sobre isto e os argumentos estão à disposição de quem os queira procurar. Inúmeros médicos também defendem precisamente o contrário. Depois de um esgrimir de argumentos, em 2011, a IAAF (AIFA em português – Associação Internacional das Federações de Atletismo) aprovou regras que estabeleciam um limite máximo para os níveis de testosterona nas atletas femininas, forçando as mulheres nesta situação a escolher entre uma medicação de supressão hormonal, a remoção cirúrgica de testículos (no caso das atletas intersexuais) ou o abandono da competição. O regulamento acabaria por ser suspenso em 2015, quando uma atleta indiana com hiperandrogenismo, Dutee Chand, recorreu para o Tribunal Arbitral de Desporto, demonstrando que a IAAF não tinha fundamentado cientificamente a sua decisão.

 

 

Mas o caso não parou por aqui. Caster ganhou, o segundo lugar foi para Francine Niyonsaba do Burundi e o terceiro para Margaret Wambui do Quénia, que, por terem um “aspecto supostamente pouco feminino” também têm sido alvo da transfobia generalizada.

 

O mesmo se passa com Michelle Rodriguez, protagonista da última versão transfóbica com que Hollywood nos costuma brindar. Falo do Filme (Re)assignment (que era para ser intitulado de Tomboy a revenger’s tale), protagonizado por ela e por Sigourney Weaver, em que um sicário se transforma numa sicária (Michelle) através de uma cirurgia de correcão de sexo (forçada) e que depois procura a médica (Sigourney) para se vingar de tão horrífico crime (a cirurgia = crime, ideia subliminarmente distribuída com o filme).

 

 

Não há grande novidade nisto: Já Pedro Almodóvar representou essa cirurgia como punição por uma suposta violação no seu filme “La piel que habito”. Antes, Alfred Hitchcock já tinha “demonizado” as pessoas trans no seu filme “Psycho” (Anthony Perkins como o vilão cross-dresser), Também “Color of night”, realizado por Richard Rush apresenta Jane March como a vilã trans, “The silence of the lambs” de Jonathan Demme apresenta Ted Levine como o vilão trans, “Dressed to Kill” de Brian de Palma apresenta Michael Caine como a assassina trans com dupla personalidade, enfim, uma panóplia de enredos que demonstram bem que as pessoas trans são assassinas psicopatas e as cirurgias de correcção de sexo uma horrorizante ameaça para as identidades cis.

 

Não admira então que exista tanta dificuldade em aceitar uma mulher trans como ela é, uma mulher.

 

Num mundo em que a ciência já nos deu incontáveis casos em que a sorte é madrasta, é quase incompreensível como a comunidade médica (aqui num sentido mais científico) tem sido incapaz de aceitar este facto.

 

Convenhamos, existem pessoas que nascem sem útero, sem ovários, com vaginas fechadas, com testículos internos, cegas, sem braços ou pernas, com braços ou pernas defeituosos, com doenças degenerativas, com doenças raríssimas, enfim, um sei lá de coisas que podem correr mal, que é uma absurdidade ver-se que a comunidade científica não consiga aceitar que existem mulheres (e homens) que nascem com um corpo completamente funcional mas com a genitália errada.

 

Mais incompreensível é como a comunidade médica tem sido incapaz de aceitar que, num mundo em que nada é preto e branco, mas uma graduação entre estes dois pólos, insistem em querer encaixar as pessoas em dogmas inventados pelos mesmos. Como exemplo a “mania” que só são pessoas transexuais aquelas que querem fazer a cirurgia de correcção de sexo.

 

Com efeito, neste caso preciso, muito convenientemente alteraram a ordem dos factores. A cirurgia de correcção de sexo é desejada por algumas pessoas transexuais (não por todas, por uma minoria) por causa de serem transexuais. No entanto, tem sido muito comum usarem essa vontade como definição para a transexualidade. Ou seja, de uma cirurgia feita porque se é transexual, passou-se para uma cirurgia feita para se ser transexual.

 

 

Tudo para uma cisheteronormalização das pessoas: mulheres (só) com vagina e homens (só) com pénis, obliterando as partes cinzentas existentes entre estes dois pólos.

 

Ainda recentemente dei uma vista de olhos por um artigo que basicamente dizia não existirem provas científicas que as pessoas nasçam trans ou homo. Já há muito tempo que tenho procurado, entre toda a gente (heteros e homos/trans e cis) quem tenha conscientemente decidido ser trans ou cis ou homo ou hetero. Não encontrei uma única pessoa. As pessoas sentem-se atraídas por quem se sentem sem nenhuma decisão consciente, simplesmente sentem atração e pronto. O mesmo se aplica às pessoas trans ou cis.

 

Claro que quanto mais retrógradas as pessoas são, mais transfóbicas têm tendência a ser. Não admira portanto que existam certas seitas consideradas feministas que são altamente transfóbicas. Para essas pessoas só são mulheres as que nascem cis. As outras que tenham o azar de nascer com genitália masculina, são vistas como homens por estas, e então inventam histórias sobre os homens (inimigo principal) que são tão dominantes que até lhes querem roubar o “ser mulher”.Aqui por homens entenda-se mulheres trans.

 

Todas estas teorias delirantes provêm de uma única causa, a incapacidade de aceitarem que existem mulheres (e homens) que nascem com genitália (perfeitamente funcional) do género oposto. Que se lixe a navalha de Occam, vamos complicar para assim podermos discriminar.

 

É o ser humano em todo o seu esplendor.

 

Isto leva-me à classificação que alguns países estão a empreender referente ao género das pessoas trans. Refiro-me ao “terceiro sexo”. Certos países, como a Índia, estão a classificar as pessoas trans nem como masculinas ou femininas mas como um terceiro sexo/género.

 

 

Para muitas pessoas trans, isto é considerado como uma vitória, pois efectivamente há muita gente que sente que não se enquadra nos dois géneros “estatais”, e para essas é o reconhecimento oficial de que existem, do que sentem, e que têm direitos como a demais população.

 

No caso das pessoas transexuais, a meu ver, já não resulta. por exemplo, eu sei que sou mulher, sei que tenho um género que se enquadra nos dois oficiais. Para mim, ser classificada como terceiro sexo/género seria a negação da minha feminilidade, da minha identidade, do meu ser.

 

Nesses países corre-se então o risco de englobar toda a população trans dentro desta nova classificação, negando assim a identidade a muita gente. É um avanço, sim, mas tem que se ter cuidado, dando às pessoas trans o direito a escolherem em qual destas classificações se devem/querem enquadrar.

 

Também a nível de discriminação, não me parece que resolva alguma coisa. Ter-se um documento a dizer “neutro” ou “terceiro sexo” ou qualquer outra coisa não vai resolver nada. Quem discrimina, ao ver a documentação, discrimina à mesma. É como se tivesse “alien” ou “maluco” ou qualquer outra coisa. Legaliza, mas não resolve nem evita.

 

Trans woman, activist, writer and translator from Portugal (that's in Europe)

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